Coincidências acontecem. Antes de deixar o blog Tribuneiros.com, publiquei um último texto chamado "Meu pai". Agora, logo após postar uma declaração de amor ao meu genitor, comunico que, em breve, estaremos, como diz a linguagem marqueteira, descontinuando este blog.
Isso não significa que meus sete leitores ficarão sem meus textos. Agora, bato ponto todos os dias no blog Primo Cruzado - www.primocruzado.blogspot.com - ao lado dos respeitados Jorge Birolha, Rodrigo Cambará, Makossa e Jane Jones.
Além disso, tenho arquivados todos os textos da época do Tribuneiros.com, assim como deste blog. No futuro, eles podem voltar a ser publicados, na internet ou mesmo em versão impressa.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
O amor em poucas palavras
Ele esteve durante estes dias perto de mim, mas eu não soube fazer o que era certo. Queria abraçá-lo, dar-lhe um beijo, dizer coisas saídas do meu coração. Fiquei sem coragem. Não são fáceis para mim essas coisas.
Nunca soube expressar para ele o que sinto. A gente se olha, eu penso em dizer algo, mas me calo, guardando os sentimentos para mim.
O caminho inverso também sempre foi muito difícil. Sei que ele já me abraçou, me beijou, me disse, um dia, o quanto sou importante para ele, mas hoje paramos um na frente do outro e nada mais é dito.
Quando estamos juntos, falo do tempo: parece que vai chover. Lembro do futebol: o Flamengo sempre tem o que melhorar. Escuto uma música e conto a ele uma história curiosa sobre o que a cantora está dizendo. Batemos longos papos, sem que eu lhe diga o que guardo dentro de mim.
Ontem, ele me chamou para jantar. Fiquei feliz, me arrumei e demorei no banho, antecipando em minha cabeça a noite que viria. Pedi uma salada, ele devorou uma carne. Me preocupei com seu coração, ele deu de ombros.
Faz algum tempo, ele voltou a ficar longe de mim e pensei que podia ter procurado mais formas de fazê-lo feliz, presenteado-o com mais sorrisos, ainda que nos dias de tristeza, ou mesmo ficado ao seu lado, encostando minha cabeça em seu ombro, como quando percebi pela primeira vez que não sabia viver sem ele.
Logo ele, que sempre vai e volta. Sempre o espero. Ele mora longe. Eu sempre dou um jeito de vê-lo. Ele é fechado por natureza. Eu, por outro lado, não consigo ser mais aberto a expressar minhas emoções.
Mas tudo que eu queria era poder me despir do escudo que criei em volta de mim, da timidez e da inabilidade com palavras e dizer, ainda que só por uma vez, para que ele nunca mais esqueça disso na vida: pai, eu te amo.
Com todo meu coração.
Nunca soube expressar para ele o que sinto. A gente se olha, eu penso em dizer algo, mas me calo, guardando os sentimentos para mim.
O caminho inverso também sempre foi muito difícil. Sei que ele já me abraçou, me beijou, me disse, um dia, o quanto sou importante para ele, mas hoje paramos um na frente do outro e nada mais é dito.
Quando estamos juntos, falo do tempo: parece que vai chover. Lembro do futebol: o Flamengo sempre tem o que melhorar. Escuto uma música e conto a ele uma história curiosa sobre o que a cantora está dizendo. Batemos longos papos, sem que eu lhe diga o que guardo dentro de mim.
Ontem, ele me chamou para jantar. Fiquei feliz, me arrumei e demorei no banho, antecipando em minha cabeça a noite que viria. Pedi uma salada, ele devorou uma carne. Me preocupei com seu coração, ele deu de ombros.
Faz algum tempo, ele voltou a ficar longe de mim e pensei que podia ter procurado mais formas de fazê-lo feliz, presenteado-o com mais sorrisos, ainda que nos dias de tristeza, ou mesmo ficado ao seu lado, encostando minha cabeça em seu ombro, como quando percebi pela primeira vez que não sabia viver sem ele.
Logo ele, que sempre vai e volta. Sempre o espero. Ele mora longe. Eu sempre dou um jeito de vê-lo. Ele é fechado por natureza. Eu, por outro lado, não consigo ser mais aberto a expressar minhas emoções.
Mas tudo que eu queria era poder me despir do escudo que criei em volta de mim, da timidez e da inabilidade com palavras e dizer, ainda que só por uma vez, para que ele nunca mais esqueça disso na vida: pai, eu te amo.
Com todo meu coração.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Madureira sorri (mas podia sorrir mais)
Como previsto, o Império Serrano foi campeão do Grupo de Acesso. Parabéns à escola da Serrinha. Não sou torcedor desta agremiação, mas já passei bons momentos com ela. Em 2004, participei do histórico desfile que reeditou "Aquarela brasileira", sendo aquela, talvez, a maior emoção que já tive num carnaval.Além disso, a escola tem uma ligação estreita com o bloco de que participo, então, no ano passado, pude sair às ruas - e até puxar o samba - ao som da bateria de Mestre Átila, que contou com amigos e parentes meus entre os ritmistas.
Com tudo isso, não tem como não ficar feliz com a volta desta escola à elite. Mesmo sendo torcedor da Ilha, que, entre as favoritas, amargou um quinto lugar. Ano que vem, a gente volta. E aí, quem sabe, teremos um carnaval mais humano e menos técnico, com Império Serrano, União da Ilha e, quem sabe, uma Mangueira mais ligada a suas raízes.
Outra representante de Madureira, a Portela chegou a ameaçar até um vice-campeonato, como em 95, mas ficou com o quarto lugar. Foi bom, se comparado aos últimos dissabores da escola, mas pouco para quem apresentou um desfile candidato ao título.
Falando em 95, um amigo portelense e tricolor me lembrou que aquele ano foi inesquecível, já que a Portela foi vice-campeã (com um samba lindíssimo) e o Flu saiu de um jejum com um gol de barriga. Pesquisando um pouco mais, vi que as últimas duas vitórias da águia - em 70 e 84 - coincidiram com campeonatos brasileiros do time das Laranjeiras. Seriam os dois ligados?
Bom, é isso. Ao que parece, o campeonato da Beija-Flor foi justo, já que fora previsto por toda imprensa especializada. Mas que está chato, isso está, não?
Para quem pretende ir ao desfile das campeãs - com previsão de chuva de novo - a ordem é essa:
- Imperatriz Leopoldinense
- Unidos da Tijuca
- Portela
- Grande Rio
- Salgueiro
- Beija-Flor
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Rapidinhas de carnaval
- Muito difícil alguém tirar do Império Serrano a vaga no Grupo Especial. Não foi muito fácil perceber isso pela transmissão da CNT, mas a escola estava lindíssima e veio com um profissionalismo que muitas outras não tiveram.Além disso, de todas as agremiações que brigam para voltar à elite, foi a que pareceu mais inconformada com o espaço que hoje ocupa e, aí, o "chão" falou mais alto, fazendo com que ela viesse com tudo.
- Muita gente sabe que sou simpatizante da União da Ilha. Talvez seja, como já disse um amigo, torcedor de uma Ilha que não existe mais, a dos sambas inesquecíveis, como "Domingo", "É hoje" e "Festa profana". E é exatamente por amar esse patrimônio da escola, que acho que ela merece continuar no Acesso, de castigo.
Onde já se viu apresentar um samba lindo como "É hoje" fora de um dia de nobre e sem os grandes patrocínios e apoios que ganham as estrelas do Grupo Especial? Isso porque, antes de fazer esta besteira, eles já deram de bandeja o "Festa profana" para a Porto da Pedra. Só falta, agora, entregar o "Domingo" para o carnaval de São Paulo e, pronto, eles terminam de desperdiçar o que a Ilha tem de mais bonito.

- Finalmente me rendi ao intérprete da Unidos da Tijuca, Wantuir. Ele começou a me conquistar no ano passado, quando pegou um samba irregular sobre fotografia e levou bonito. Neste ano, ele encarou de novo uma composição mediana, sobre coleções, e arrebentou.

- Em matéria de samba, quem mostrou competência foi a Imperatriz Leopoldinense. Mas não custa reproduzir a frase de um amigo, especialista em carnaval: "É um desperdício ver o melhor samba do ano ser cantado pelo Preto Jóia".
- Sobre a Viradouro, não tenho muito o que dizer, além da impressão de que Paulo Barros já conseguiu o que queria quando ganhou as páginas de todos os jornais e revistas com a polêmica do carro do Holocausto. Inclusive, houve quem levantasse a suspeita de que a alegoria nunca iria para a Sapucaí, sendo apenas um factóide. Em 2007, os produtores de "Tropa de elite", vítima da pirataria, também foram acusados de boicotar o próprio trabalho, em troca de publicidade espontânea.
Acho exagerado e fantasioso, mas, analisando apenas o desfile, acho que o carnavalesco parece sempre disposto a exibir sua genialidade e pronto, sem dar muito acabamento ao que cria. Se repararmos em outras escolas, elas são impecáveis nos carros, fantasias e destaques. Já o inventor das alegorias vivas dá a impressão de que se contenta em ser diferente. Ou seja: Paulo Barros deixa no ar a idéia de que gosta mais de holofotes para si do que de títulos para as escolas onde trabalha.
- O contrário faz a Mangueira, que sempre tem alegorias muito imponentes, coloridas e bem acabadas. Neste ano, a escola teve problemas com a chuva e, pela primeira vez, não aposto muitas fichas de que vá para o desfile das campeãs. Digo isso, inclusive, sendo dos poucos que gostam do samba que ela cantou.
Acho uma composição acima da média. Mas acredito que o fato de um contraventor estar entre seus autores e, mais ainda, falar de frevo, em vez do Mestre Cartola, tornou-a uma das campeãs de críticas da mídia especializada.
- Outra escola que sofreu com o noticiário policial foi a Beija-Flor. Não boto a mão no fogo pela lisura de nenhuma disputa que conte com jurados, nem mesmo campeonato de ginástica olímpica, mas se roubo houve no ano passado, foi à toa. A escola de Nilópolis foi a melhor e não precisava de nenhuma ajudinha a mais.
Neste ano, o trauma da operação Hurricane, que pôs em xeque o último campenato, se refletiu no refrão "Comunidade impõe respeito/bate no peito, eu sou Beija-Flor", dizendo que por trás dos carnavais vencedores está um povo capaz de lotar ensaios que rolam toda quinta-feira, na Baixada (ou seja: sem o reforço de turistas e da meninada da Zona Sul).

- Porém, quem sofre mesmo com a má vontade dos amantes tradicionais do carnaval é a Grande Rio, o que mostra que carisma não se compra. A tricolor de Caxias tem muito luxo, desfila cheia de artistas, mas estou entre os que acham que mais valia um sofrido Império Serrano na Sapucaí, do que uma escola milionária, mas incapaz de empolgar as arquibancadas.
Apesar disso, o desfile de 2008 mostrou que a escola vai continuar entre as campeãs de novo, queiram ou não os puristas. Carro imponentes e fantasias luxuosas devem garantir uma boa posição a um enredo que teve até carro alegórico representando botijão de gás.
- Continuando entre as antipatizadas, eu não faria cara feia se a Imperatriz fosse a campeã. Conhecida pelos desfiles com alegorias, fantasias e evolução impecáveis se unindo a sambas horrorosos e pouca animação, neste carnaval, a escola de Ramos surpreendeu. A música era a melhor e a comunidade veio em peso, dando um gás que eles não costumavam ter em anos anteriores. A comunidade de Ramos, que, entre outras coisas, nos deu os feras do Cacique, merece.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Memórias do jornalismo V - É carnaval novamente!
Meu segundo carnaval como repórter foi um pouco melhor do que o primeiro. Como no ano anterior eu não havia sido feliz em nenhuma das possibilidades de dia e horário na escala de plantão, resolveram me dar uma forcinha.Para quem não lembra, no primeiro capítulo destas memórias, contei como funcionava o esquema de trabalho, durante os carnavais, no periódico em que escrevia. Todo repórter e editor era obrigado a trabalhar por dois dias: ou sábado e domingo ou segunda-feira e terça-feira. Minha preferência era pelo fim de semana e, desta vez,, finalmente, me atenderam.
Mas é sempre bom lembrar que pato novo, mesmo que já não seja mais calouro, não dá mergulho fundo e que, mais importante, se você vai bater ponto em outra editoria, por lá, você é um estranho. Estou fazendo essa introdução toda para dizer que fui escolhido para trabalhar sábado e domingo, só que às 7h, horário que ninguém quer, ainda mais no carnaval.
Obviamente, como bom insone acostumado a não entrar muito cedo na redação, passei a noite em claro. E olha que nem precisava ter levantado tão cedo. Afinal, o trajeto de minha casa para o jornal durou dez minutos. Pensa bem, quem mais estaria na rua, além de um pobre coitado, escolhido para trabalhar cedo em pleno sábado de carnaval?
Ninguém, nem mesmo o cara que entrega o jornal lá em casa, o que me fez tomar café procurando algo na televisão para ver. A única coisa que havia era o desfile das escolas de samba de São Paulo, que já terminava seu primeiro dia. Senti inveja dos locutores. Passaram a noite agüentando um monte de paulista achando que sabe sambar, mas logo estariam em casa dormindo. Já eu, sem dormir, nem começava ainda o dia de trabalho.
Às 7h, a redação, claro, estava deserta. Nem o chefe de reportagem chega a essa hora. A missão do repórter é tentar recuperar tudo que aconteceu na madrugada e ver se tem alguma coisa acontecendo. Caso esteja tudo calmo, dá pra dar uma relaxada no restaurante do jornal, que serve café com leite e pão na chapa.
Quando chegou meu chefe, recebi minha missão. Após confirmar que não havia nenhum crime acontecendo, lá fui eu para o desfile do Cordão da Bola Preta. A tarefa era rápida. Em vinte minutos, eu devia cobrir tudo e voltar, por conta de horários de impressão que nunca consegui entender.
Para quem não sabe, entrar num desfile do Bola Preta é como se trancar num banheiro pequeno com 80 pessoas dentro. Você mal consegue se mexer e não tem a menor idéia do que está acontecendo. Por isso, enquanto o fotógrafo se embrenhou na multidão e até subiu num carro de som, eu fiquei um pouco à margem, procurando figuras curiosas e tentando checar com a Polícia Militar quantas pessoas estavam por lá. Meu primeiro número, 50 mil, foi publicado na internet em tempo real, sendo reajustado uma hora depois para 300 mil.
De resto, foi aquela coisa de tentar achar um folião engraçado, uma celebridade perdida e perguntar a veteranos da folia sobre a emoção de sair num bloco próximo de ser despejado de sua sede (o que aconteceu em janeiro de 2008, por falta de pagamento do aluguel).
Após cumprir esta tarefa, fui liberado rigorosamente no horário, às 14h, e tinha um dia inteiro para curtir o carnaval. Mas, bem, quem me conhece sabe que não aproveitei nada. Eu não havia dormido à noite, nunca consigo fazê-lo de tarde e quando passo uma noite em claro, fico deprimido pelo resto do dia. Ainda mais sabendo que teria que levantar às 6h novamente na manhã seguinte.
Cansado, escrevi uma crônica que gosto muito, chamada “De uma janela de Copacabana”.
Blocos e manhã de sol
De sábado para domingo, não cheguei a dormir maravilhas, mas acordei mais disposto. Isso me dava uma certa alegria, já que seria o último dia de trabalho no carnaval. Novamente, tomei café vendo os pseudocarnavalescos de São Paulo e segui para a redação.
Mas, desta vez, meu trajeto não era tão simples. Eu trabalhava ao lado do Sambódromo e várias ruas estavam fechadas por causa do desfile do grupo de acesso, que começara na véspera. Rodando há um bom tempo dentro de um táxi, resolvi saltar no meio de um viaduto e ir andando até a redação. Com tanta gente saindo da farra das escolas de samba, era óbvio que não passaria impune, então, antes de começar meu dia de trabalho, ganhei uma bela cantada de um travesti.
Além dos problemas de trânsito, no domingo, também não havia café quentinho e pão na chapa, mas resolvi meu problema com suco velho e pão frio com queijo e manteiga, servidos numa cantina do andar logo abaixo ao da redação. Essa modesta refeição iria salvar meu dia.
Quando meu chefe chegou, novamente ficamos sem descobrir nenhum crime, então fui mandado para mais um bloco, o Cordão do Boitatá. Ao contrário do Bola Preta, este já havia terminado seu percurso na hora em que cheguei e era bastante agradável. Muita gente bonita, nenhum aperto e uma pequena turma que curtia um bailinho carnavalesco pós-desfile, na Praça XV.
Animado, depois de cumprir a rotina de procurar figuras engraçadas e celebridades e entrevistar veteranos da folia, decidi dar uma voltinha, para observar a festa. Estava ainda distraído com as marchinhas e as moças bonitas que via (mas só via, por favor!), quando fui cutucado por uma menina.
Era a irmã de minha namorada, que estranhou me ver sozinho naquela farra. Por alguns segundos, ela deve ter me odiado, até ver o crachá que eu ostentava no peito. De ódio, ela passou a ter pena de mim.
Se ela sentiu realmente isso, não havia motivo (por enquanto). Eu estava feliz com o dia bonito de sol e a proximidade do início de carnaval para mim.
Nem bem observei o movimento e meu telefone já tocava, com nova tarefa: ir ao Piscinão de Ramos, um clássico dos jornais populares, saber como estava sendo o feriado por lá. Muita gente, cerveja, afogamentos, samba?
Chegando lá, descobri que tinha tudo isso, apurei as informações necessárias e me dirigi à redação, `as 13h, pronto para começar meu carnaval. Afinal, às 14h, terminaria meu turno.
Fome, sede e cansaço
Foi quando tocou o celular e meu chefe de reportagem perguntou onde eu estava. Pensando que se tratava de uma pressão para que voltasse logo e escrevesse minha matéria, tranqüilizei-o:
- Já estou voltando.
- Não faça isso! Você vai para Nova Iguaçu. Anota aí o endereço que vou te passar.
A matéria, apesar de envolver a polícia, não era potencialmente perigosa. Porém, seria uma dor de cabeça. Simplesmente, um homem com problemas psicológicos havia discutido com a mulher, expulsou-a de casa, se trancou lá dentro e, armado, ameaçava se matar.
Em Nova Iguaçu, encontrei uma cena de filme americano. Rua cercada, negociadores, equipes cercando a casa e dezenas de curiosos. Apesar do local estar cheio, não havia repórteres de outros veículos. Pensei com ironia: “outro furo de carnaval”.
Esse detalhe deixou meu chefe feliz. Uma notícia exclusiva em pleno carnaval, envolvendo ruas cercadas, negociadores e vários policiais, era tudo o que ele queria. Já eu, com sinceridade, desejava ir para casa. Não comia nada desde o pão frio da hora em que entrara na redação e o calor era cruel. Contudo, entendia que aquilo podia ser um furo e que, para uma grande história, valem a pena os sacrifícios.
Enquanto as horas passavam, a história variava entre o trágico e o patético. O marido desconfiara sem razão da fidelidade da mulher e dava um show. O problema é que o protagonista do espetáculo tinha problemas sérios no coração – o que desaconselhava, por exemplo, uma entrada cinematográfica dos policiais na casa, pelo risco de matá-lo de susto – e há tempos, segundo os vizinhos, misturava tranqüilizantes com doses generosas de álcool.
Eu, que estava trabalhando desde as 7h da manhã, me via, às 16h, sem perspectiva de terminar o expediente. Sem comer, era obrigado a matar a sede com água trazida por algumas crianças do local, já que não havia nenhum estabelecimento comercial aberto. A procedência da água nunca foi descoberta, mas o fato é que eu e minha equipe bebíamos com o desespero dos que sofrem privações.
Não havia muita saída para a situação. Temendo pela vida do homem dentro da casa, a polícia só podia esperar que ele se entregasse. Por isso negociava, sem sucesso.
Às 16h30m, meu fotógrafo, esgotado, sugeriu que eu pedisse ao chefe de reportagem uma rendição, ou seja, que outros profissionais nos substituíssem. O chefe pediu muitas desculpas, mas negou, por falta de equipe. Acreditei nele, pois era um dos cara mais legais que já conheci no meio jornalístico.
Porém, às 17h, chegou à redação a repórter do turno da noite e fui avisado de que poderia voltar, já que ela seria designada para acompanhar o fim da história. Me avisaram também de que eu teria que dar ao fotógrafo a triste notícia de que ele não teria a mesma sorte, pois não havia um profissional para cobri-lo.
Enquanto voltava, não tive muito tempo para sentir qualquer alegria. Sentia fome, suava e tinha a impressão de que o sol havia me castigado demais. E se minha chegada ao jornal pela manhã havia sido atrapalhada por um já terminado desfile do grupo de acesso, a obrigação de, naquele fim de tarde, transitar perto de enormes carros alegóricos das escolas que fariam a festa no grupo especial não era mais agradável.
Até porque, com uma credencial de “passe livre”, o motorista do jornal achava que isso significava poder estacionar no meio da ala da diretoria da Mangueira ou abastecer o carro com cerveja no Camarote da Brahma e forçava a passagem em meio a alegorias enfileiradas. Com fome, sede e cansaço, queria discutir com ele, mas não tinha forças.
Ao pisar na redação, percebi que o sol realmente tinha me castigado. Estava vermelho da cabeça aos pés, o que deixou meu chefe de reportagem preocupado com minha saúde.
Após comer e beber algo, a repórter que me cobria no local da reportagem ligou e contou que o homem tinha se entregado. Eram 18h30m, tínhamos boas fotos, mais algumas informações e tudo certo para escrever, enfim, a matéria.
Enquanto escrevia, chegou uma mensagem. Era uma carta para minha editora, pedindo-lhe que me desse uma folga após o carnaval, por conta de minha aventura naquele dia. Chefe de reportagem também tem coração. E esse era dos melhores.
O fotógrafo também foi brindado com a tal folga e, abrindo um sorriso, disse: "Eu sabia que ia rolar alguma coisa assim", dando a entender que o chefe de reportagem daquele fim de semana era um profissional conhecido por tratar os colegas com carinho.
Às 20h, terminei de escrever tudo e saí do jornal ao lado dos repórteres que cobririam a folia na Sapucaí. Um deles perguntou, com ironia:
- Já vai?
Quando respondi a hora em que tinha entrado, todos se calaram.
Mas eu não me importava. Ia para casa, finalmente, descansar, após mais de doze horas de trabalho. No dia seguinte, curti meu descanso sem poder, porém, pegar sol. Já a grande história de Nova Iguaçu, como esperado, não saiu em nenhum outro jornal.
Nem teve repercussão nenhuma, infelizmente.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Memórias do jornalismo IV - A Faixa de Gaza carioca
Em maio de 2005, passei por uma experiência que desejei nunca mais repetir: ver a tragédia de um amigo ser notícia em meu plantão. Num sábado, havia chegado à redação às 16h, para o turno que se encerraria às 23h, quando vi uma das reportagens já prontas para a edição de domingo. Nela, um homem fora brutalmente assassinado, às 7h30m, numa rua do bairro de Benfica, subúrbio do Rio. Era pai deste meu amigo, que por respeito à sua história, manterei o nome em sigilo.
As razões do crime nunca ficaram muito claras, variando entre duas hipóteses: na primeira, teriam tentado parar o carro da vítima para assaltá-la, o motorista não freou e foi alvejado. A segunda dava conta de um possível “bonde” de traficantes que passava na hora e, vendo um automóvel não parar diante do grupo, atirou sem pena. “Bonde” é uma gíria dos criminosos do Rio para um comboio destinado a levar drogas de uma favela a outra ou invadir um reduto rival.
Seja qual for a causa, a conseqüência foi assustadora. Após vários tiros, inclusive de fuzil, o carro dirigido pelo pai de meu amigo seguiu descontrolado para fora da pista, até se chocar com força contra uma bomba de gasolina. O frentista que trabalhava no local, claro, nunca teve coragem de dar explicações muito detalhadas sobre o que viu, mas o estado da vítima não deixou dúvidas a respeito do potencial bélico de seus assassinos.
Ler uma notícia assim te deixa perplexo, diante dos caminhos tortuosos do destino. Não só o destino da vítima, morta ao voltar do local onde iria comprar bebidas para o casamento do filho, marcado para novembro daquele ano. Mas também com o meu, já que eu poderia ter ido cobrir o drama de um amigo, caso tivesse sido escalado para trabalhar mais cedo.
Passei todo o plantão de sábado acompanhando de longe sua tristeza, contando com o fato de que o último turno de sábado é sempre muito tranqüilo. Com o jornal de domingo pronto desde sexta-feira, por ser mais frio, com revistas e amenidades, o repórter só é obrigado a sair à rua se houver um fato muito forte.
Assim, mantive-me durante todo o dia na sala onde costumávamos monitorar os acontecimentos da cidade, ouvindo relatos pelo telefone sobre a dor de meu amigo, ao mesmo tempo em que procurava possíveis pautas.
Apesar de ter passado a tarde inteira com o pensamento longe, consegui uma boa história para o dia seguinte. Na época, o Brasil vivia um impasse com a Bolívia a respeito do preço do gás vendido para nós pelo vizinho. O governo do presidente Evo Morales bateu o pé e resolveu aumentar o valor de seu maior item de exportação.
Sabendo disso, um revendedor de gás de cozinha de São Gonçalo dobrara o preço dos botijões que distribuía para moradores daquele município. O problema é que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, já que este produto não vinha da Bolívia, tornando o caso uma mistura de comédia com uma mostra dolorosa da picaretagem brasileira.
Depois de um dia calmo e com uma tarefa definida para o dia seguinte (ir a São Gonçalo), às 22h, já contava os minutos para ir embora (faltava uma hora). Foi quando o rádio usado na sala de apuração, capaz de captar a freqüência da polícia, começou a transmitir ruídos de tiros, gritos e correria de policiais.
Na mesma hora, a repórter de um outro jornal do mesmo grupo de comunicação em que trabalhava ligou para minha mesa e perguntou:
- Você ouviu isso?
Ainda assustado com a possibilidade de ir para um front de guerra, respondi sem pensar:
- O quê?
Foi a pior resposta possível. Ela considerou que eu tinha dificuldades para acompanhar a movimentação do radinho de polícia e passou isso a seu chefe. O resultado veio em minutos, com uma nova ligação de minha colega:
- Rafael, teve um tiroteio na Avenida dos Democráticos (também no subúrbio). Como você tem dificuldades para ouvir o radinho, nossos chefes decidiram que eu fico apurando daqui e você vai para lá. Vai me passando os dados por telefone, que eu escrevo a matéria – ela disse.
Com uma certa pena de mim, meu chefe decretou:
- Não tem jeito, você vai lá então. Mas faz o seguinte: passa tudo por telefone e nem volta para cá. Quando já tiver tudo apurado, pede para o carro de reportagem te deixar em casa.
Faltando meia hora para terminar meu turno, eu seguia para uma área de risco.
Um cenário desolador
No caminho, vi placas com a palavra “Benfica” e pensei no meu amigo. Pela sua dor recente e também pelo meu próprio temor de estar me dirigindo a uma imensa região assolada pela violência.
O tiroteio, porém, já havia terminado e meu trabalho seria, em tese, bem menos arriscado. Bastava ir à delegacia de Bonsucesso, onde estavam alguns carros e pessoas atingidas por tiros, e anotar rigorosamente tudo o que havia acontecido, pegando depoimentos de policiais e pessoas comuns.
O cenário era desolador, com três automóveis atingidos por balas. O mais alvejado era um Palio, alvo de 11 disparos. Neste carro viajava, no banco do carona, uma mulher de 60 anos, baleada no pescoço. Ela chegou a ser levada ao hospital, mas não resistiu. Um comerciante, de 64 anos, que estava parado num ponto de ônibus, também morreu, atingido por um tiro na cabeça.
O saldo era de dois mortos e três feridos. A hipótese mais provável era a de tentativa de arrastão no trânsito. Mas havia também, novamente, a suspeita da passagem de um "bonde" do tráfico pelo local ou confronto entre criminosos. Segundo o registro de ocorrência, os disparos teriam sido efetuados por diversos homens, na esquina da Avenida dos Democráticos com a Avenida Dom Helder Câmara. Eles seriam da favela de Manguinhos, com destino à favela do Jacarezinho, ou vice-versa, duas localidades vizinhas de Bonsucesso e Benfica.
Eu estava tão tenso por ouvir aqueles relatos de violência num local próximo de onde morrera o pai de meu amigo, que cometi algumas confusões. Logo que cheguei à delegacia, recebi a tarefa de passar para a repórter na redação as placas dos carros. Por puro nervosismo, consegui dizer números errados por três vezes. Felizmente, quem estava do outro lado era uma das jornalistas mais amigáveis do Rio, então não recebi nenhuma bronca.
Terminado o trabalho, o motorista me deixou em casa. No dia seguinte, fiz a tal matéria sobre a esperteza do vendedor de botijões e fui liberado rigorosamente dentro do horário. Chefe de reportagem também tem coração.
Um processo contra as autoridades
No sábado seguinte, estive na missa de sétimo dia e soube que meu amigo não estava disposto a aceitar com conformismo seu sofrimento. Obviamente, sua intenção não era enfrentar bandidos ou investigar o crime. Seu alvo era outro: o Estado.
A razão era óbvia. Os crimes naquela região não eram novidade. Se ocorriam, era por negligência do governo. Enfim, coisas que todo carioca sabe, mas raramente um deles tem a coragem de reclamar. Meu amigo tinha e queria pedir uma indenização na Justiça.
Como repórter, me dispus a pesquisar no arquivo do jornal a seqüência de crimes naquele local (Benfica, Bonsucesso e imediações), para ajudá-lo a provar que eram bem conhecidos das autoridades. Nosso único combinado é que todas as nossas ações teriam como alvo apenas as autoridades, e não bandidos. A violência de hoje não está para brincadeira, então é prudente deixar os criminosos quietos no canto deles, mesmo quando eles nos fazem mal. Já vivíamos uma tragédia grande o suficiente. Não precisávamos arrumar mais dor de cabeça.
Dois dias depois, o jornal O Globo facilitou o trabalho. Uma matéria grande enumerava os crimes daquela região e a batizava com um triste apelido: Faixa de Gaza.
A ela juntei a reportagem sobre o próprio assassinato do pai de meu amigo e a do tiroteio que cobri, entre diversas outras que encontrei no arquivo. Era uma montanha de relatos de crimes tão grande, que, em qualquer país justo, o Estado seria obrigado a pagar milhões a diversas vítimas.
Dias depois, aconteceu um fato de grande visibilidade. O guitarrista de uma banda de rock famosa era assassinado no Rocha, outro bairro do subúrbio.
Mas o que poderia ser uma ajuda para missão de meu amigo, já que o assassinato de uma celebridade talvez trouxesse força a seu protesto, acabou deixando-o frustrado. Enquanto o caso de seu pai seguia para o arquivo de casos esquecidos, rapidamente os assassinos do guitarrista foram presos, mostrando que, quando quer, o Estado defende seus cidadãos.
Foi o bastante para que meu amigo escrevesse para mim e outros amigos uma carta-desabafo. Quando a li, não tive dúvida: aquilo tinha que ser publicado. Resolvi encaminhá-la, então, para meus editores. Antes, fiz uma pequena alteração, incluindo embaixo da assinatura a seguinte informação: “Filho de xxxxx, morto em Benfica, na região conhecida como Faixa de Gaza.
No mesmo minuto, os chefes de reportagem me pediram o telefone do autor da mensagem indignada, que foi à redação para conversar com a equipe. No domingo seguinte à entrevista, saiu a reportagem. Era um soco no peito, com duas páginas, onde se lia o caso de meu amigo e uma seqüência imensa de outros casos nunca solucionados.
Mesmo após dar seu depoimento em um jornal de grande circulação e reunir dados suficientes para provar, em qualquer tribunal, a negligência do Estado, meu amigo nunca recebeu grande atenção das autoridades. Cansado de sofrer, ele, então, decidiu se dedicar a viver em paz, abandonando uma cruzada que só trazia lhe dor. Concordei em enterrar o assunto e desejei-lhe muita paz e felicidade.
Hoje, mesmo com a prisão dos assassinos do tal guitarrista, o vocalista da banda famosa, volta e meia, aparece na mídia, protestando contra as autoridades. Já meu amigo, esquecido pelo Estado e transformado em mera estatística, segue a vida, carregando sua dor silenciosa.
As razões do crime nunca ficaram muito claras, variando entre duas hipóteses: na primeira, teriam tentado parar o carro da vítima para assaltá-la, o motorista não freou e foi alvejado. A segunda dava conta de um possível “bonde” de traficantes que passava na hora e, vendo um automóvel não parar diante do grupo, atirou sem pena. “Bonde” é uma gíria dos criminosos do Rio para um comboio destinado a levar drogas de uma favela a outra ou invadir um reduto rival.
Seja qual for a causa, a conseqüência foi assustadora. Após vários tiros, inclusive de fuzil, o carro dirigido pelo pai de meu amigo seguiu descontrolado para fora da pista, até se chocar com força contra uma bomba de gasolina. O frentista que trabalhava no local, claro, nunca teve coragem de dar explicações muito detalhadas sobre o que viu, mas o estado da vítima não deixou dúvidas a respeito do potencial bélico de seus assassinos.
Ler uma notícia assim te deixa perplexo, diante dos caminhos tortuosos do destino. Não só o destino da vítima, morta ao voltar do local onde iria comprar bebidas para o casamento do filho, marcado para novembro daquele ano. Mas também com o meu, já que eu poderia ter ido cobrir o drama de um amigo, caso tivesse sido escalado para trabalhar mais cedo.
Passei todo o plantão de sábado acompanhando de longe sua tristeza, contando com o fato de que o último turno de sábado é sempre muito tranqüilo. Com o jornal de domingo pronto desde sexta-feira, por ser mais frio, com revistas e amenidades, o repórter só é obrigado a sair à rua se houver um fato muito forte.
Assim, mantive-me durante todo o dia na sala onde costumávamos monitorar os acontecimentos da cidade, ouvindo relatos pelo telefone sobre a dor de meu amigo, ao mesmo tempo em que procurava possíveis pautas.
Apesar de ter passado a tarde inteira com o pensamento longe, consegui uma boa história para o dia seguinte. Na época, o Brasil vivia um impasse com a Bolívia a respeito do preço do gás vendido para nós pelo vizinho. O governo do presidente Evo Morales bateu o pé e resolveu aumentar o valor de seu maior item de exportação.
Sabendo disso, um revendedor de gás de cozinha de São Gonçalo dobrara o preço dos botijões que distribuía para moradores daquele município. O problema é que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, já que este produto não vinha da Bolívia, tornando o caso uma mistura de comédia com uma mostra dolorosa da picaretagem brasileira.
Depois de um dia calmo e com uma tarefa definida para o dia seguinte (ir a São Gonçalo), às 22h, já contava os minutos para ir embora (faltava uma hora). Foi quando o rádio usado na sala de apuração, capaz de captar a freqüência da polícia, começou a transmitir ruídos de tiros, gritos e correria de policiais.
Na mesma hora, a repórter de um outro jornal do mesmo grupo de comunicação em que trabalhava ligou para minha mesa e perguntou:
- Você ouviu isso?
Ainda assustado com a possibilidade de ir para um front de guerra, respondi sem pensar:
- O quê?
Foi a pior resposta possível. Ela considerou que eu tinha dificuldades para acompanhar a movimentação do radinho de polícia e passou isso a seu chefe. O resultado veio em minutos, com uma nova ligação de minha colega:
- Rafael, teve um tiroteio na Avenida dos Democráticos (também no subúrbio). Como você tem dificuldades para ouvir o radinho, nossos chefes decidiram que eu fico apurando daqui e você vai para lá. Vai me passando os dados por telefone, que eu escrevo a matéria – ela disse.
Com uma certa pena de mim, meu chefe decretou:
- Não tem jeito, você vai lá então. Mas faz o seguinte: passa tudo por telefone e nem volta para cá. Quando já tiver tudo apurado, pede para o carro de reportagem te deixar em casa.
Faltando meia hora para terminar meu turno, eu seguia para uma área de risco.
Um cenário desolador
No caminho, vi placas com a palavra “Benfica” e pensei no meu amigo. Pela sua dor recente e também pelo meu próprio temor de estar me dirigindo a uma imensa região assolada pela violência.
O tiroteio, porém, já havia terminado e meu trabalho seria, em tese, bem menos arriscado. Bastava ir à delegacia de Bonsucesso, onde estavam alguns carros e pessoas atingidas por tiros, e anotar rigorosamente tudo o que havia acontecido, pegando depoimentos de policiais e pessoas comuns.
O cenário era desolador, com três automóveis atingidos por balas. O mais alvejado era um Palio, alvo de 11 disparos. Neste carro viajava, no banco do carona, uma mulher de 60 anos, baleada no pescoço. Ela chegou a ser levada ao hospital, mas não resistiu. Um comerciante, de 64 anos, que estava parado num ponto de ônibus, também morreu, atingido por um tiro na cabeça.
O saldo era de dois mortos e três feridos. A hipótese mais provável era a de tentativa de arrastão no trânsito. Mas havia também, novamente, a suspeita da passagem de um "bonde" do tráfico pelo local ou confronto entre criminosos. Segundo o registro de ocorrência, os disparos teriam sido efetuados por diversos homens, na esquina da Avenida dos Democráticos com a Avenida Dom Helder Câmara. Eles seriam da favela de Manguinhos, com destino à favela do Jacarezinho, ou vice-versa, duas localidades vizinhas de Bonsucesso e Benfica.
Eu estava tão tenso por ouvir aqueles relatos de violência num local próximo de onde morrera o pai de meu amigo, que cometi algumas confusões. Logo que cheguei à delegacia, recebi a tarefa de passar para a repórter na redação as placas dos carros. Por puro nervosismo, consegui dizer números errados por três vezes. Felizmente, quem estava do outro lado era uma das jornalistas mais amigáveis do Rio, então não recebi nenhuma bronca.
Terminado o trabalho, o motorista me deixou em casa. No dia seguinte, fiz a tal matéria sobre a esperteza do vendedor de botijões e fui liberado rigorosamente dentro do horário. Chefe de reportagem também tem coração.
Um processo contra as autoridades
No sábado seguinte, estive na missa de sétimo dia e soube que meu amigo não estava disposto a aceitar com conformismo seu sofrimento. Obviamente, sua intenção não era enfrentar bandidos ou investigar o crime. Seu alvo era outro: o Estado.
A razão era óbvia. Os crimes naquela região não eram novidade. Se ocorriam, era por negligência do governo. Enfim, coisas que todo carioca sabe, mas raramente um deles tem a coragem de reclamar. Meu amigo tinha e queria pedir uma indenização na Justiça.
Como repórter, me dispus a pesquisar no arquivo do jornal a seqüência de crimes naquele local (Benfica, Bonsucesso e imediações), para ajudá-lo a provar que eram bem conhecidos das autoridades. Nosso único combinado é que todas as nossas ações teriam como alvo apenas as autoridades, e não bandidos. A violência de hoje não está para brincadeira, então é prudente deixar os criminosos quietos no canto deles, mesmo quando eles nos fazem mal. Já vivíamos uma tragédia grande o suficiente. Não precisávamos arrumar mais dor de cabeça.
Dois dias depois, o jornal O Globo facilitou o trabalho. Uma matéria grande enumerava os crimes daquela região e a batizava com um triste apelido: Faixa de Gaza.
A ela juntei a reportagem sobre o próprio assassinato do pai de meu amigo e a do tiroteio que cobri, entre diversas outras que encontrei no arquivo. Era uma montanha de relatos de crimes tão grande, que, em qualquer país justo, o Estado seria obrigado a pagar milhões a diversas vítimas.
Dias depois, aconteceu um fato de grande visibilidade. O guitarrista de uma banda de rock famosa era assassinado no Rocha, outro bairro do subúrbio.
Mas o que poderia ser uma ajuda para missão de meu amigo, já que o assassinato de uma celebridade talvez trouxesse força a seu protesto, acabou deixando-o frustrado. Enquanto o caso de seu pai seguia para o arquivo de casos esquecidos, rapidamente os assassinos do guitarrista foram presos, mostrando que, quando quer, o Estado defende seus cidadãos.
Foi o bastante para que meu amigo escrevesse para mim e outros amigos uma carta-desabafo. Quando a li, não tive dúvida: aquilo tinha que ser publicado. Resolvi encaminhá-la, então, para meus editores. Antes, fiz uma pequena alteração, incluindo embaixo da assinatura a seguinte informação: “Filho de xxxxx, morto em Benfica, na região conhecida como Faixa de Gaza.
No mesmo minuto, os chefes de reportagem me pediram o telefone do autor da mensagem indignada, que foi à redação para conversar com a equipe. No domingo seguinte à entrevista, saiu a reportagem. Era um soco no peito, com duas páginas, onde se lia o caso de meu amigo e uma seqüência imensa de outros casos nunca solucionados.
Mesmo após dar seu depoimento em um jornal de grande circulação e reunir dados suficientes para provar, em qualquer tribunal, a negligência do Estado, meu amigo nunca recebeu grande atenção das autoridades. Cansado de sofrer, ele, então, decidiu se dedicar a viver em paz, abandonando uma cruzada que só trazia lhe dor. Concordei em enterrar o assunto e desejei-lhe muita paz e felicidade.
Hoje, mesmo com a prisão dos assassinos do tal guitarrista, o vocalista da banda famosa, volta e meia, aparece na mídia, protestando contra as autoridades. Já meu amigo, esquecido pelo Estado e transformado em mera estatística, segue a vida, carregando sua dor silenciosa.
sábado, 19 de janeiro de 2008
Memórias do jornalismo III - A morte do patrono
Plantão de fim de semana sempre foi um sofrimento para todo repórter, independente de seu horário de entrada na redação. Nos sábados e domingos, a equipe é reduzida e cada um trabalha, teoricamente (mas muito, muito teoricamente) por sete horas. Isso no periódico em que eu batia ponto, onde a gente dava um plantão por mês.
Em outras redações chega-se a trabalhar dez horas por dias, com uma escala de um fim de semana de trabalho a cada quinze dias.
Bom, mas voltando ao jornal que pagava meu salário, por lá, o primeiro repórter entrava `as sete da manhã e o último `as 16h, no sábado, e 17h, no domingo. Quem inaugurava o turno de trabalho, na teoria, voltava para casa `as 14h. Mas isso nem sempre era verdade. Em outro capítulo, contarei um domingo de carnaval em que trabalhei de 7h `as 20h.
Essa possibilidade de passar doze horas trabalhando era um dos motivos que me faziam preferir começar a trabalhar `a tarde. Principalmente porque sempre fui insone, então, pisar na redação `as 7h muitas vezes significava trabalhar sem ter dormido.
No último plantão de agosto de 2005, meu horário não era tão cedo, e sim `as 9h, mas aconteceu o que não gostava: saí de casa para apurar notícias sem ter pregado o olho a noite toda. Muito por causa da minha insônia, mas um pouco também pelo luxuoso auxílio de meu vizinho, cuja festa da véspera durara até cinco da manhã.
Para mim, todo plantão, por si só, já era estressante. Isso porque, em dias normais, atuava como repórter de cultura e o trabalho de plantonista era, em sua essência, de cobertura de cidade, o que num jornal popular tinha um significado claro: crimes.
Nunca tive que fazer isso, mas uma vez por mês, sempre tinha o medo de me ver no meio de um tiroteio, uma operação dentro de alguma favela ou rebelião em presídio. Por isso, até receber minha(s) pauta(s) do dia, vivia em estado permanente de tensão.
Naquele sábado, o suspense só durou até a entrada na redação. Nem bem cumprimentei meu chefe de reportagem e ele já me disse: "Você vai para Belford Roxo". Era o enterro de um vereador, membro de uma CPI local, assassinado na véspera.
Meu trabalho deveria ser apenas registrar aquele momento, sem grandes investigações, pois como disse um entrevistado, "infelizmente, por aqui, isso acontece toda hora", então não tínhamos qualquer pretensão de solucionar o caso. O que havia de curioso era que nunca havia pisado num cemitério anteriormente. Minha primeira vez, portanto, seria na despedida de um político. Cumpri bem a tarefa e consegui voltar para casa no horário, passando o dia inteiro com sono.
Lamento do sambista
No domingo, ainda tive que entrar mais cedo, `as 8h, porém consegui dormir melhor e cheguei com mais disposição ao trabalho. Como na véspera, mal chegara e já tinha uma notícia quentinha: José Carlos Monassa, presidente da escola de samba niteroiense Unidos do Viradouro, havia morrido.
Ao contrário de outras mortes deste meio, dominado por pessoas acusadas de enriquecimento através de atividades ilegais - o próprio Monassa sofria este tipo de acusação - este patrono havia morrido de causas naturais.
Minha tarefa, assim que cheguei ao jornal, consistia em apurar a repercussão dentro do mundo do samba da perda deste dirigente de agremiação carnavalesca. Uma outra repórter já estava designada para ir a Niterói, acompanhar velório e enterro.
De repente, o chefe mudou de idéia: "Vai você, Rafael. Assim, caso aconteça algum fato policial ao longo do dia, a outra repórter, que é mais experiente nisso, pode cobrir". Tal notícia era boa e ruim. Se por um lado, estava me livrando de um possível tiroteio, por outro, sabia que o enterro seria só às 16h, uma hora depois do horário em que terminaria meu turno.
Deixei a redação e minha primeira parada foi na quadra da escola de samba, no Barreto, um bairro modesto de Niteroi. Lá havia um velório, onde esperava encontrar figuras conhecidas da escola. Não foi bem assim. Apesar de ter conversado com pessoas de certa notoriedade, ao menos para quem é carioca e acompanha os desfiles na Sapucaí, como Mestre Ciça, comandante dos ritmistas, e a triatleta Fernanda Keller, todos sentiram falta do puxador Dominguinhos do Estácio e, principalmente, da atriz de novelas Juliana Paes, que desfilava como rainha de bateria.
Dominguinhos, segundo integrantes da escola, estava fora do Rio, mas já tinha telefonado, externando sua tristeza. Juliana, porém, não dera qualquer sinal de vida.
Com um número baixo de pessoas famosas para entrevistar, esta primeira parte do trabalho acabou sendo relativamente fácil e durou até a hora em que, ao som de um surdo de marcação, familiares e amigos carregaram o caixão para o veículo que o levaria ao cemitério.
Eu já caminhava em direção ao carro de reportagem, quando dei de cara com o fotógrafo que me acompanhava, de pé, no balcão de uma barraquinha de comida. Ele esperava por um x-tudo e disparou com sinceridade: "Pede um também, porque vai ser a única coisa que você vai comer hoje".
Não sou um adepto dos mais fervorosos da culinária de rua, mas aceitei o conselho, ao perceber que já eram 14h e, desde as 7h, não comia nada. O sanduíche, comido dentro do carro, é lembrado por mim até hoje como um dos mais gostosos da minha vida, mas desconfio que isso se deva mesmo à imensa fome que sentia.
Estávamos a caminho do enterro do patrono
Visão do paraíso
O local onde o patrono seria enterrado, o cemitério Parque da Colina, era, realmente, a ante-sala do paraíso. Silencioso e com uma imensa área verde, poderia passar fácil por um clube de golfe ou uma mansão de campo. Lá foi possível encontrar figuras famosas do carnaval que não marcaram presença na quadra da escola. Entre eles, o presidente da Beija-Flor de Nilópolis, Aniz Abrãao David, e os diretores da Liga Independente das Escolas de Samba - LIESA - Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, e Jorge Perlingeiro.
Assim que deu de cara com eles, o fotógrafo que estava comigo comentou: "Já fotografei alguns destes caras que estão aqui, quando eles foram presos, por ordem da juiza Denisse Frossard". Anos depois, Aniz Abrãao David e Ailton Guimarães Jorge teriam novamente sua prisão pedida pela Justiça.
Lá estava também a ex-modelo Luma de Oliveira, que brilhou por um tempo como rainha de bateria da escola, até ser expulsa, acusada de ser negligente com o calendário de ensaios. Sua presença no enterro, aliás, era dúvida, justamente por sua saída conturbada.
Achei que seria difícil falar com ela, por causa da polêmica, mas também pelo fato de que a musa chorava copiosamente. Me aproximei com cuidado, cumprimentei-a e perguntei se ela se importaria em falar algumas palavras.
Tanta cautela por nada. Luma é uma mulher da mídia. Os flashes a amam, mas o amor é recíproco. Assim que terminei de falar, ela já respondeu: "Claro, sem problema", enquanto retocava a maquiagem, para disfarçar os olhos inchados.
Durante a entrevista, ela não evitou nenhum assunto. Falou de seu carinho por Monassa, usou sem rodeios a palavra "expulsa", ao se referir a sua saída e concluiu dizendo que seu carinho pelo patrono nunca havia terminado.
Então, novamente, um cortejo seguiu, levando o caixão. E, assim, ocorreu o momento mais emocionante do dia, quando vi o corpo descer ao túmulo, enquanto os presentes, acompanhados pelo tocador de surdo, cantavam o belíssimo tema da escola para o carnaval de 1998, aquele que dizia: "Hoje o amor está no ar/ vai conquistar seu coração/ tristeza não tem fim, felicidade, sim/ sou Viradouro, sou paixão".
Passavam da 17h quando segui de volta `a redação, pronto para a tarefa de escrever a reportagem. Chegando lá, mal comecei a traçar algumas linhas e uma da editora gritou:" Quem tá com a matéria do Monassa?" Quando disse que era eu, ela recomendou: "Vamos bater forte nestes bicheiros. Essa gente devia estar na cadeia e tava lá, circulando pelo enterro."
Não estava disposto a comprar briga com gente famosa, verdade ou não, por eliminar sem pena os inimigos, mas tinha que cumprir ordens. Fui, no entanto, pouco beligerante. Usando um jogo infame de palavras, disse que "o destaque do enterro havia sido a ala da contravenção, que evoluiu livremente, na despedida do amigo". E parou por aí a provocação aos outros patronos.
No mais, questionei a ausência da atriz global, falei da emoção de Luma e reproduzi algumas declarações de figuras ilustres do carnaval.
Um furacão no caminho
Havia chegado à redação às 8h e doze horas depois estava liberado para voltar para casa. Cansado, me dediquei a preparar o trabalho do dia seguinte: uma entrevista com os Paralamas do Sucesso, a respeito do primeiro disco de músicas inéditas que o grupo lançaria após o acidente que matou a mulher do vocalista e deixou o próprio numa cadeira de rodas.
Enquanto fazia isso, um vizinho ligou, perguntando se poderia usar minha internet. Concordei e ele apareceu com sua neta, que usou um programa de mensagens instantâneas para se comunicar com o marido, em visita a Nova Orleans, cidade que acabava de ser devastada pelo furacão Katrina.
Ela conversou com o marido, me agradeceu e foi embora. Distraído com a preparação do trabalho do dia seguinte, nem sequer pedi um contato, para tentar uma reportagem com ele. Dias depois, o rapaz era estrela dos principais jornais e programas de TV do país, como um sobrevivente do caos que tomou conta daquele lugar. Já minha entrevista com os Paralamas do Sucesso, bem, essa ninguém lembra.
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